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O consumo excessivo do álcool na terceira idade

O consumo de álcool no Brasil é um tema frequentemente abordado e muito atual, principalmente quando pensamos no grande número de jovens que vem apresentando quadros de embriaguez em público. A OMS (Organização Mundial de Saúde) relata que a situação tem piorado, pois em 2005, 18% dos consumidores masculinos relataram ter tido episódios de forte consumo de bebidas alcóolicas (quatro ou cinco bebidas em uma única ocasião ao longo de 30 dias). Essa porcentagem subiu para quase 30% em 2010. O excesso de consumo de álcool está entre os dez principais problemas de saúde pública no mundo e é a quarta doença mais incapacitante.

Simone Matias, assistente social, referencia técnica para o tema no Centro Dia Pasárgada, ressalta que de acordo com o DSMV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - American Psychiatric Association), o conceito de abuso do álcool deixa de existir, restando apenas o conceito de dependência e que alguns fatores sociais contribuem com o aumento do consumo, como a facilidade do acesso, a legalidade no consumo e podemos arriscar a grande insatisfação social presente em grande parte da história do nosso país.

“O fenômeno da dependência se organiza a partir de um tripé: a subjetividade do indivíduo, as características farmacológicas da substância e o contexto sócio cultural de encontro”. Claude Olieveinstein

O que nos chama a atenção atualmente é o aumento do número de idosos consumindo álcool em excesso com manifestações públicas de embriaguez. Tais fatos nos remetem à discussão da longevidade que faz parte atualmente de muitas discussões públicas. O empenho em orientar as pessoas quanto a melhorar hábitos alimentares, abolir o tabagismo, desenvolver atividades físicas também se mostram estratégias de sucesso ao pensarmos no prolongamento da vida de muitas pessoas.

Vanessa Idargo Mutchnik, terapeuta ocupacional, aponta que “com o aumento da expectativa de vida, surgiram também as necessidades de repensar hábitos, rotinas, cuidados, de como viver essa extensão da vida”.

Ainda nos deparamos com pessoas extremamente ativas que vivenciam a questão da aposentadoria. Algumas pessoas que desempenhavam diversas atividades ao longo da vida estavam apenas esperando a oportunidade de se aposentar para poderem desempenhar outras atividades além do trabalho, porém para outras pessoas que dedicaram toda sua energia ao trabalho, a aposentadoria pode ser um grande vazio.

Muitas pessoas após os 60/70 anos passam a desenvolver o hábito de beber pequenas doses de álcool, mesmo porque não tem mais a pressão do trabalho, tem mais tempo livre, porém, a falta de rotina e de projetos pessoais pode levar este hábito social e até comemorativo a um quadro de dependência do álcool. Alguns idosos chegam a passar tardes inteiras em locais de socialização como clubes, bares e restaurantes, conversando com amigos e ao final da confraternização mal conseguem se levantar da cadeira, outros mesmo em casa e de forma mais discreta fazem o consumo do álcool e dormem a tarde toda. Tais situações não são tão abordadas pela imprensa ou pelo poder público, pois jovens embriagados causam muito mais danos sociais do que idosos embriagados, mas para os familiares e pessoas do convívio social destes idosos, aí vai um alerta:

“O excesso de consumo de álcool no idoso pode ser tanto causa e efeito de quadros de depressão e quadros demenciais”. Segundo a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), o problema não costuma ser diagnosticado nesta faixa etária porque os sintomas do alcoolismo são atribuídos a outras doenças crônicas como demência e depressão ou, muitas vezes, ao próprio envelhecimento. Além disso, muitas vezes o problema é negligenciado pela família, tratado como natural e não informado nas consultas médicas.

Idosos cambaleando alcoolizados pelo bairro não devem ser consideradas situações comuns de aposentados ou situações menos importantes, pois a combinação entre o consumo excessivo de álcool com o uso de muitas medicações consumidas por idosos e a falta de tratamento se tornam grandes problemas para o idoso que passará rapidamente a ter consequências clinicas como o agravamento de doenças e a sobrecarga do sistema imunológico. Em consequência a rede de saúde é sobrecarregada com demandas que poderiam ser evitadas com a devida atenção ao idoso e ao sistema familiar que passam com frequência e se isolar pela dificuldade de permanecer em atividades sociais sem o excesso do álcool.

Pois bem nos deparamos novamente com o conflito de viver mais tempo, porém nem sempre com mais qualidade. Os serviços de acompanhamento e tratamento de álcool e drogas nem sempre conseguem acolher a demanda dos idosos que muitas vezes não chegam aos serviços, por vergonha ou por não compreenderem este quadro como uma situação que precisa de acompanhamento.

É muito importante ficarmos alertas para esta situação antes, durante e depois de percebermos o que está acontecendo e não considerarmos estas situações amenidades da velhice.

Muitos são os motivos que facilitam a dependência de álcool na terceira idade: aposentadoria (ociosidade), viuvez ou solidão, sentimento de inutilidade e falta e perspectiva de vida.

As mudanças de rotinas e hábitos que levam os idosos ao consumo excessivo de álcool são estratégias fundamentais para evitar o agravamento dos quadros iniciais.

A construção de projetos e novas rotinas no período pós aposentadoria devem ser consideradas como projetos de suma importância para evitar que pessoas que se dedicaram muito ao trabalho ao longo da vida, fiquem perdidas e com muito tempo ocioso.

Levar as informações sobre consumo excessivo de álcool em consultas é fundamental para que os profissionais possam identificar as melhores estratégias para atender as demandas de tratamento antes que os quadros se agravem.


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